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Cotovelando

Microcontos para quem não gosta de ler

Passou rápido pela seção de comédias, viu o Leslie Nielsen montado numa bala de revólver, deu uma risada muda, e seguiu até os filmes de terror. Parou o olhar na capa com o desenho de uma mão erguida e suja de terra; será que teria o mesmo prazer de quando tinha 14 anos? Ficaria assustado, com tesão ao ver as mocinhas peitudas ensanguentadas? Dormiria mal à noite? Ficou irritado ao perceber que não havia uma lógica na ordem dos filmes. Nem a alfabética. Pensou em encher o saco de algum atendente que, antes de se aproximar, iria sugerir o novo filme do Morgan Freeman, no qual, de novo, ele fazia o papel de um investigador de polícia aposentado. Ou o novo do Adam Sandler. Barbara Steele, a musa de Mario Bava, pescou o seu olhar. Clássico do horror italiano que merecia ser revisto. Não. Foi até a prateleira de cinema europeu. Vazia, a não ser por um senhor de paletó de tweed, indeciso entre Herzog e Wenders. Depois de ler a contracapa, optou pelo primeiro. Justo. Ali sim, tudo organizado pelo sobrenome do diretor. Almodóvar dando a partida e Zurlini encerrando a seção. Agachou e começou a arrumar a obra completa de Von Trier, girou o pescoço a fim de ler melhor os títulos. Sentiu um pouco de náusea. Por fim, recolocou tudo em ordem alfabética. Pulou os asiáticos. “Posso te ajudar?”, outro atendente. “Pode, claro.” Pediu três filmes da década de 1920 que estavam fora de catálogo, de propósito. Agradeceu. Chegou a pensar em gastar o dinheiro suado em algum documentário de bicho: os ursos albinos do Alaska, os peixes voadores ou a saga dos búfalos. Contou 17 produções sobre o nazismo e 8 sobre escaladas, sendo três do Everest. Sentiu falta da salinha dos pornôs. Se tivesse alguma pesquisa de satisfação do cliente, seria a sua primeira reclamação. Comprou duas pipocas de micro-ondas e, ao passar pelo caixa, avisou que “desta vez não levaria nada”.  

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A melhor mãe do mundo preparou o frapê de abacate para o filho. Na hora de adoçar, deixou cair uma formiga no liquidificador. Usou a colher para achá-la. Mexeu, mexeu, de lá pra cá, e nada. Ouviu os passos do filho chegando à mesa. Sentiu-se ansiosa. Ele poderia encontrar aquela formiga no meio da massa verde e acusá-la de desleixo. Acusaria se encontrasse. Para se vingar da briga de ontem. Já tinha comido outras formigas antes, mas desta vez seria imperdoável. O filho não beijou a mãe, balbuciou o bom-dia. Ela se assustou mesmo sabendo que ele estava ali. Ligou de novo o liquidificador para evitar o silêncio. “Triturei a formiga”, ela pensou. Deixou que o barulho ficasse alto ao ponto de irritá-lo, ela também estava magoada. Provou com a colher o frapê, estava doce demais. Ele não olhou o copo antes de entorná-lo na boca. Cuspiu: “Que merda, mãe, tem uma formiga no meu frapê.”

Na sua fábrica de adesivos, onde ganhava um troco, havia três opções de frase autocolante: “eu sou triste”, “ando tristíssimo” e “minha vida é uma bosta”. Nada de material estocado, era tiro certo, o mesmo prazer de completar um álbum. Se tivesse grana para comprar tecido, estamparia as mensagens na camisa. Se tivesse spray, as grafaria no teto do quarto para dormir sofrendo.

Deixou o computador e foi malhar. Queria pintar bem no lançamento do seu livro sobre a revolta dos gafanhotos. Estudou tudo sobre os gafanhotos para escrevê-lo. Podia admitir agora que não era uma paixão pelos insetos ortópteros. Nem chegava ao interesse. Escolheu o tema pensando na capa, nas inusitadas ilustrações do interior. Chamaria a sua namoradinha DJ para fazê-las.

Desceu a rua de casa improvisando na cidade, ouvindo jazz no iphone, relando nos postes, de shortinho preto e camisa, parecendo algum personagem de Jarmusch. Mexendo baquetas imaginárias. Quase soltou um palavrão em inglês. Viu sua aparência no espelho antes de entrar. Cumprimentou a recepcionista com o olho, sem diminuir o volume. Sentia-se olhado, gostava da pequena fama.

Era dia de exercitar os braços, seu bíceps ainda parecia uma bolinha de tênis, mais perto de uma anomalia. Chet Baker no talo e as veias saltando. Genial a ideia dos gafanhotos. Inventaria outra história, como se fosse a sua, dizendo que seu pai, lavrador abnegado, sofrera com essas pragas. Moldou a lembrança a pedido de seu editor. As pragas e o menino do campo.

Tomou banho cantando alto a fim de espantar a insegurança. Passou xampu nos sovacos, vestiu-se de preto, sóbrio. Escovou o dente do siso e quase vomitou. Chegou com um atraso premeditado na livraria, onde havia fãs, desconhecidos e amigos. Esperou por ela na fila, enquanto redigia dedicatórias burocráticas, trocando apenas o vocativo. Contou a história do pai lavrador e das pragas que não saíam de sua cabeça.

Levantou-se, tomou um dedo de uísque, conversou com os fãs. Procurou por cima deles a aparição dela. Nada. Começou a ficar triste. Ainda a amava muito, aproveitaria o pódio para declarar isso. Tudo por ela, o sucesso, o bíceps em formato de bolinha. Tudo agora sem sentido. Era tarde para resgatar a única verdade sobre a qual nunca escrevera nada.

Pedro saiu de casa de tardezinha. Sentiu nas pernas a letargia da vida pesando nas suas costas. O passo cada vez mais difícil de ser executado. Pedro pensava para caminhar. Ficou com muito medo de fixar o olhar no horizonte vermelho, depois ter de aguentar a escuridão que chega lento, dando novo tom aos ambientes manjados da sua trajetória de sempre. Pedro parou querendo desistir da vida, sem força para carregar a mochila e a vida nas costas. As chuteiras sujas de uma terra estrangeira, portando saudade na sola. Pedro sentiu o peso das chuteiras nas costas e se curvou, abaixou e caiu por querer no chão. Abriu a mochila e cheirou como se tivesse uma trompa, escarafunchando os bolsos. Se ao menos a terra colada na sola estivesse molhada, aí sim. Tentou fechar o zíper com a cabeça dentro, forçou o zíper até machucar o pescoço. Pedro pensou no sangue que circulava dentro dele e ficou com medo de que ele jorrasse, saísse da pele arrebentando o registro que ele já não mais conseguia manter fechado. Sentou-se na beirada do gramado, olhou de novo a cor do horizonte, ficou cego de propósito, embaçando a própria visão, querendo demonstrar controle, fazendo mágica para uma plateia inexistente. Pedro ficaria feliz em alguns minutos. Calçou as chuteiras, amarrou o cadarço com um nó na canela, querendo dificultar a circulação do sangue até os tornozelos. Pisou no gramado e olhou para o músculo da coxa, fibroso, fez desenhos ali, riu e olhou para as traves sem rede. Pedro gostaria de estufá-las. Alongou a batata da perna, desceu o tronco e sentiu uma queimação subindo pelo peito com gosto de mortadela. Arrotou baixinho. Sentiu frio na ponta dos pés e correu em volta do gramado, trotando como um cavalo preguiçoso. Quando começaria o jogo? Procurou pela bola além das traves, no meio do matagal, entrando numa zona de perigo. Gostou de sentir aquele medo idiota, a adrenalina quase o tirou do torpor. Tinha alguém no meio do mato, olhando, os olhos brilhando como dois faróis. Pedro parou e encolheu os dedos dentro da chuteira. Chutaria aquela cabeça de olhos brilhantes como se fosse uma bola, caso fosse preciso. Mentira, jamais chutaria uma pessoa. Um animal, talvez. Afastou-se andando de costas até a noite borrar aquele rosto. Voltou para o gramado sem a pretensão de ganhar a partida. Pedro queria apenas jogar e esquentar os dedos do pé.

A camiseta rasgada no ombro era para chamar a atenção dos engomadinhos. O rosto de Warhol amarelo, mais batido que Jesus Cristo na cruz. Os fiapos da calça jeans esburacada. O jeito de desligada, concentrada no andar desleixado. Na frente da TV ligada para os insetos, para o resto de comida na cozinha.

Ali ela podia ouvir a dupla sertaneja de que mais gostava, podia tirar meleca do nariz e jogar pela janela, deixar a boca suja de maionese e fazer gargarejo com a coca. Cheirar pó e gritar para o vizinho escondido na varanda, no banquinho, de óculos, nerd, vendo mães como se vê carne no açougue. Fingindo olhar para as estrelas como um astrônomo encabulado, esperando a hora certa.

O homem de terno saindo do trabalho, a gravata frouxa, o sapato lustroso, a autoestima vestida para matar ambulantes sujos, desdentados, falando com o vento, mostrando o dom de profeta e exibindo sua loucura. O dinheiro falso que comprou o presente dela indo pelo ralo. Sobram sorrisos na sala, gente alegre, colorida, perfumada, erudita, que fala de Truffaut, jogo de botão e aquecimento global, como se colassem figurinhas no álbum, bobos como crianças.

Quero minha avó, pelo amor de Deus, quero minha avó de volta: café na mesa, broa, quintal e cheiro de talco.

Entrou em casa sem ver a mulher picando cebola na cozinha. Queria se esconder na própria casa, passar ileso, não ter de beijar a testa dos filhos antes de dormir. Por que não podia sentar em frente à TV e assistir aos gols da rodada, ou ver um filme pornô de segunda no canal aberto? Queria abandonar a função de pai e marido por uma noite, não porque desgostava da saia acima da cintura da esposa, da sua voz modulada, ou do modo como seus filhos comiam deixando grãos caírem fora do prato. Seria uma liberdade instantânea importante para ele. Foi ao banheiro e escovou os dentes mais do que o habitual, ganhando tempo para pensar o que falaria à sua família, passou a escova no céu da boca, na língua, gargarejou e deixou a água ensaboada cair da boca, olhando como parecia um monstro no espelho. De nada adiantaria avisar que o dia fora duro, que gostaria de ficar quieto no seu canto. Entendem? Mijou e não deu descarga para não chamar a atenção. Desceu as escadas na ponta dos pés, ignorando a luz acesa no quarto dos meninos. Correu constrangido no corredor, como se estivesse num hotel desconhecido, fugindo sem pagar a conta. Encontrou sua cama desarrumada, o travesseiro com o formato de sua cabeça e a mancha de vinho na bainha do lençol, a mesma marca há dez anos. Descalçou os sapatos em busca de um alívio qualquer, temeu a entrada de sua mulher no quarto, de repente, o assustaria. Fingiu estar morto, fixando o olhar num pernilongo que desceu do teto num sobrevoo desordenado, sumindo em pontos escuros, até pousar no seu calcanhar branco e suado e sugar o resto de seu sangue.